A convite do Crítica Radical, estive no Sítio Sociedade Sem Dinheiro que eu carinhosamente chamo de Sítio Cururu. Então, reunimos o grupo e construímos um grande canteiro em formato de mandala. Reaproveitamos troncos e galhos para a fertilização da terra e abrigo para microorganismos e bagana de cajueiro para retenção de umidade no solo. Isso enquanto Rosa da Fonseca nos dava os rumos da emancipação humana e Hugo Theóphilo dicas de pão caseiro com fermento natural para os nossos lanches.
Cozinhar nunca esteve no meu repertório de habilidades. Não mesmo! Quem me conhece sabe o meu drama e meu trauma gastronômico. Cachorro da rua já fez pouco da minha comida e até água na panela consigo queimar.
A falta desse dom de cozinhar tem me incomodado porque estava nos meus planos quando fui morar sozinho. E vou me incomodando mais ainda a medida que conheço a péssima qualidade dos alimentos que sou induzido a consumir na minha rotina. É uma distribuição generalizada de produtos contaminados com agrotóxicos, de alimentos transgênicos, frutas sem sabor e pouco nutritivas. Por minha saúde é preciso fazer uma revolução.
Montei uma estratégia que parte de algo que sei fazer bem que é plantar. Assim, troquei a minha grama por plantas comestíveis e propositalmente criei um problema. O que fazer com todas essas plantas comestíveis? Comer! Claro! E digo que essa estratégia está funcionando bem. A princípio os meus sucos ganharam um tempero de hortelã, menta e couve. O pão-de-queijo de forno ou frigideira recebe os majericões. As saladas a flor-madeira, joão-gomes, tomates... O arroz vem com os pimentões, a salsa e a cebolinha... Milho natural e cozido é algo muito saboroso. Agora já consigo colocar mais sabor e saúde na mesa.
E o cachorro, no entanto, ainda não come da minha comida. Dessa vez é porque não sobra nada.
Agradecimentos sinceros e singelos a Hugo Theóphilo, Hermano Filho e Manoela Silva pelas dicas.
Quando a lua é nova e a força das plantas desce para as raízes, eu me dedico a arte de podar. É o momento certo para dar uma arrumada na copa das árvores, fazer uma limpeza, dar rumo aos galhos desgarrados. Com a poda é possível dar altivez a uma árvore que tenha envergado pela ação do vento, reparar algum dano causado por brincadeiras infantis ou maldades adultas descompromissadas com o meio ambiente. A fome voraz do gado de rua também causa seus estragos. Os jumentos tem preferências por plantas de praça.
Acordei cedo e cuidava da poda das árvores da "minha praça" no bairro Passaré. Algumas pessoas se exercitavam e também cultivavam o ato de se isolar no mundo com seus aparelhos de produzir felicidade. Aí, chegou um casal de idosos, atropelando a cordialidade de um bom-dia, o velho foi logo perguntando:
- Meu fi, tô com um pé de siriguela lá em casa que não desenvolve. O que eu faço?
Sentei no pneu-canteiro do pé de oiticica que estava tratando e respirei.
- Bom dia!... Bem… uma árvore precisa de 3 coisas basicamente: luz...
- Tá tomando sol o dia quais todo - ele respondeu.
- Água...
A mulher foi mostrando serviço.
- Rego toda noite. Num falta água pra bichinha.
- … e adubo.
O homem coçou a cabeça e não achava que estava fazendo nada de errado. Mas, a mulher disse que tinha aparecido uns fiapo branco, muito provavelmente era conchonilha, e o homem se entregou…
- Taquei baigon!
Baixei a cabeça e veio um aperto no coração. Falta educação, controle e muito bom senso no uso desses produtos químicos. O povo se envenena de "cum força". Numa tentativa desesperada de salvar a planta fiz um pedido.
- Aproveite a lua nova e tire toda a folhagem para tentar salvar a planta. Adube com esterco curtido que na lua cheia ela dá uma melhorada.
Só faltei pedir pra ele fazer uma oração e perdão pela maldade que ele cometeu. E saíram discutindo pelo meio da praça. A mulher abofelando feio com ele porque ela tinha dito que não era pra colocar veneno… "ô cabinha teimoso" ouvi ao longe.
Ao introduzir um elemento a mais no jardim pode esperar que vai aparecer novidade. A minha bacia de aquaponia é uma novidade atrás da outra. Comecei com uma e já são quatro. E olha quem veio banhar-se nas águas da aquaponia. Praticamente todos os dias o bem-te-vi vem se refrescar aqui no jardim. De dentro de casa da pra ver os mergulhos. Agora eu entendi porque os peixes não aumentam na bacia.
O bem-te-vi é um pássaro bem popular em todo o Brasil. Tem grande capacidade de se adaptar aos vários tipos de ambiente porque tem uma alimentação bem variadas. Come insetos, frutas e até comida de cachorro. Algumas vezes se torna agressivo para defender seu território. Já assisti esse pássaro bicar em pleno ar um gavião desavisado passando pelo Passaré. Não é difícil ele atacar também seres humanos com bicadas na cabeça. Consegue pegar abelhas em pleno ar. O seu nome vem da onomatopeia do seu canto.
Quanto vale uma parceria? A arte tem sentimentos indescritíveis tanto para quem aprecia e muito mais para o criador. Nos ensaios para o projeto "Quanto vale uma canção?" eu e Edinho criamos música e sentimentos cantando os sons dos Matos e das Vilas numa só canção. Com a participação na fusão dessa sonoridade de Jeferson Portela, assim ficou.
Das Vilas Dos Matos Os Sons
Edinho Vilas Boas / Wilton Matos
Das Pontes, das ruas, os destinos / Perca a calma
Dos Mares, das ilhas, a calma / Leve o menino
De José, de Maria, o menino / Deixe a alma
Da gente, de flores, a alma / Siga o destino
Dos ricos, dos pobres, a verdade / Tantos amores
Dos filmes, dos poetas, os amores / E liberdade
Das forcas, das celas, liberdade / Não trazem dores
Das nossas senhoras, as dores / Dizem verdade
Dos brancos, dos índios, a nudez / São tantos tons
Das loas, das tardes, os tons / Hoje é sua vez
Do artista, do atleta, a vez / Todos são bons
Dos Bordéis, das igrejas, os bons / Com sua nudez
A capoeira ensina que na vida tem que ter ginga. Não pode fazer corpo duro. Muitas vezes a queda é o impulso da superação. O recuo faz parte de um movimento de avanço. Quando se pensa que está indo a volta vem por outra direção e nos pega de surpresa. Há o ritmo, há a música e o corpo cambaleante na roda da vida.
Zumba
Wilton Matos / Alan Mendonça / Mariana Ratts
Capoeira menina, capoeira mulher
Jogo de pernas, jogo de sinas
Me ensina a ser o que se é
Maria para o bonde
Maria que bate no zômi
Maria de ginga arretada
Maria que toca a vida
A berimbau e pernada
(Zumba êh Zumba ah)
Ô Zumba menina ô vem me contar
Do jogo da vida capoeira a jogar
Que traz de memória a história palmar
Mulher capoeira bonita a jogar
(Zumba êh Zumba ah)
Ô Zumba menina ô vem me contar
Do jogo da vida capoeira a jogar
A mulher traz a linha de se costurar
Aqualtune do lume de se espelhar
Espirro Mirim me trouxe
Cordão de Ouro amarrou
Zumba zumbido de foice
Capoeira me batizou
Filha do congo
Mãe da geração
Brasil escariongo
Palmares palma de mão